Éramos
ratos. Digo “éramos”, pois não sei mais o que sou hoje, e quando me perguntam
se sou um homem ou um rato estanco, sempre, não sei o que responder. Naquele
tempo sabia. Aliás, naquele tempo não me preocupava com esse tipo de situação, essas
crises que te forçam a pensar em coisas das quais não possuis uma resposta
pronta e clara, definida, assim. Éramos ratos, e só. E “só” queria dizer que
levávamos uma vida normal para a espécie: corríamos pelos esgotos, revirávamos montes
de lixo à procura de comida... Comíamos tudo o que aparecesse, vivo ou morto,
ou podre, não fazia diferença, contanto que não morrêssemos de fome.
Nesse tempo, nosso lugar
preferido era o cemitério. Ficava lá pros lados da Cidade Antiga, aquele bairro
cheio de casarões velhos, com gente velha dentro cheirando a naftalina, um odor
característico que parece pairar entre dois mundos: dos vivos e dos mortos.
Pois era naquele cemitério em que nos reuníamos aos bandos. Proliferávamos à
vontade. Corríamos pra todos os lados sem nos preocupar com o coveiro, um homem
extremamente magro que vivia preocupado demais em depenar os cadáveres à
procura de objetos de valor ou de ossos para vender sabe-se lá pra quem e pra
quê. Às vezes o espreitávamos por entre as lápides. Nossos focinhos peludos
cheirando o ar cadavérico. Quando nos via estreitava os olhos e rangia os
dentes, como se fôssemos concorrentes em potencial. Mas não éramos, e ele sabia
disso. Cada um procurava aquilo que o satisfazia: ele, os objetos de valor;
nós, a carne fresca, com o sangue, às vezes, ainda quente. Quando ele se
fartava, devolvia o caixão à cova, voltava a jogar a terra por cima. Às vezes
quando estava de bom humor (e isso queria dizer quando encontrava alguma coisa
de valor, um dente de outro, um anel...) deixava um buraco profundo para que
pudéssemos entrar sem dificuldade e fazer a nossa parte... Então entrávamos.
Centenas de nós. Cada um afoito pra pegar a melhor parte, pois nunca se sabia
quando viria o próximo. Em cidadezinha assim custava-se a morrer. Então
aproveitávamos. Mas nunca era o suficiente, não pra centenas de nós. Sempre
tínhamos fome. Sempre! Então íamos embora: revirar o lixo, o esgoto, à procura
de qualquer coisa que fosse comestível (ou não). Ou apenas íamos perambular
pelas ruas na madrugada. Vez ou outra invadíamos um armazém. Mas era difícil,
perigoso. Havia sempre os cachorros. Muitos de nós morreram assim,
estraçalhados pelos dentes afiados de um rottweiler qualquer. Eu mesmo, uma
vez, quase virei refeição. Enfiei-me num cano de esgoto no último segundo, não
sem antes perder quase a metade da calda. Mas isso não vem ao caso.
Éramos
ratos, e fazia parte de nossa natureza, assim como faz parte da natureza de
todo respirante, perder uma calda, um braço, uma perna: morrer.
Doía morrer?
Nunca havia me perguntado isso.
Até aquela noite. Eram tempos extremamente difíceis. Chovia muito e a comida
estava bastante escassa. Tudo estava raro, até mesmo morrer... Mas naquela tarde
veio a notícia: haveria um enterro! A notícia se espalhou rapidamente. Foi uma
algazarra entre a ratazada. E antes que o cortejo chegasse ao cemitério já
estávamos à espreita, de longe, olhando pelas rachaduras das lápides e
catacumbas. Os focinhos farejando o ar. Os dentes afiados urgindo por morder e
estraçalhar a farta refeição. Quase conseguíamos sentir o gosto...
O
sol já estava quase se pondo quando o cortejo chegou. “Infarto”, ouvíamos as
pessoas comentando. “Era um bom homem, que Deus o tenha”, “Vai fazer muita
falta...”. Não ligávamos para o que fora, para o que era ou se iria fazer falta
ou não. Nada disso importava. Só queríamos mesmo... comer! A natureza era assim,
desde sempre. Uns morriam pra outros viverem. O capim morria, o boi vivia, o
boi morria, o homem vivia, o homem morria e nós vivíamos... Simples.
Doía
morrer?
O
padre leu algumas palavras. Todos choraram mais ainda. A viúva, extremamente
gorda, estava inconsolável, “Ele estava tão bem! Tão bem! Foi assim, de
repente!” e caiu em prantos. Uns balançavam a cabeça. Outros assoavam o nariz.
Nós esperávamos.
Antes
de descerem o caixão à cova abriram a tampa pela última vez para uma última
despedida. Isso quase sempre acontecia. O conteúdo revelou um homem grande,
gordo, as faces extremamente rosadas, coisa que eu nunca tinha visto num
cadáver. Ele parecia ser sido um homem de posses, pois vestia um termo preto
elegante e ostentava na mão esquerda uma grossa aliança de ouro. Os olhos do
coveiro faiscaram por um segundo. Era hora de descer. Tamparam o caixão. Depois
jogaram flores por cima. E desceram, lentamente, para desespero dos quatro
rapazotes que seguravam as cordas, enquanto os demais entoavam cânticos
misturados com choros e soluços.
Assim
que o caixão chegou ao fundo da cova a viúva desmaiou. Alguém a acudiu enquanto
outros jogavam terra para cobrir a cova. Não ligávamos para o que estava
acontecendo. Faltava muito pouco para o nosso banquete. Famintos como
estávamos, seríamos os primeiros dessa vez. O coveiro que se apressasse para
cavar!
Depois que cobriram completamente
a cova, todos foram embora, arrastando os passos. Já anoitecia e começava a
cair uma chuva leve. Era a nossa hora. Então corremos.
Centenas
de nós, saídos de todos os cantos, convergiram para a cova recém-fechada. Era
questão de sobrevivência. Os que chegassem por último talvez não conseguissem
comer nada e morreriam. Corri o mais depressa que pude, como da vez que fugi do
rottweiler. Uns corriam do meu lado, outros, ávidos, embolavam-se em brigas por
um lugar à fila e acabavam ficando para trás. Ninguém desistia, no entanto. Ouvi
passos apressados: o coveiro estava rondando o local, provavelmente se
perguntando se já podia fazer o seu “serviço”. Não ligamos. Começamos a cavar a
terra, nossas garras ágeis jogando areia para os lados, formando túneis em
direção ao esquife. Tínhamos que ser rápidos, antes que a água as chuva
inundasse tudo, ou antes que o coveiro chegasse ao morto. Nisso ouvimos um
baque surdo e um gemido distante. Era provável que o coveiro estivesse começado
a cavar. Teríamos que nos apressar. Então nos apressamos. E quanto mais
cavávamos, quanto mais nos aproximávamos do caixão, mais alto ficava o baque,
mais alto os gemidos. Agora pareciam vozes, ou melhor, sussurros. Seria do
coveiro? Cavávamos, cavávamos, cavávamos! Rápidos! Famintos! Os baques mais
fortes, os gemidos mais fortes, a voz sussurrante agora chorava, chamava por
socorro.
Dói
morrer?
Não,
essa não é uma pergunta retórica, filosófica.
Chegamos
à caixa de madeira cheirando a verniz. Para meu espanto, era de lá que vinha aquele
barulho e aquela voz. Num lugar acima de nós outro barulho indicava que a terra
estava sendo revolvida apressadamente. Ali em baixo, a água infiltrava-se pelos
túneis abertos por nós. Tínhamos que ser mais rápidos. Restava romper a
madeira. Começamos a roer. Roemos, roemos, roemos. Rápidos! Famintos! De dentro
do caixão as batidas continuavam fortes, cada vez mais rápidas, a voz abafada,
terrivelmente desesperada. Mas era a lei da natureza: uns morriam pra outros
viverem, desde sempre. Doía morrer? Perguntei-me naquele momento quando
conseguimos romper a madeira. Um cheiro forte de flores se misturou ao de lama
e terra molhada. Enfiei a cabeça pela abertura. A coisa ali dentro se debatia e
gritava desesperada por socorro. Em pouco tempo o coveiro iria chegar até o
caixão. Em pouco tempo ele poderia salvar o homem, ou poderia matá-lo de vez,
terminar o que, para todos, já havia terminado. Alguém iria saber? Mas essa era
apenas uma possibilidade, ninguém saberia dizer. Ele poderia salvar o homem e
depois ser recompensado de alguma forma. Mas então morreríamos de fome. Restava
pouco tempo. Era ele ou nós. Era a natureza nos dando a chance de viver. Ainda lembro-me
do grito que o homem deu quando cravei a primeira mordida na carne farta do seu
braço. Ele gritou por um tempo, se debateu, lutou; mas era quase impossível se
mexer ali dentro, quase não coube uma centena de nós... Depois ele finalmente se
calou. A aliança, consegui arrancar junto com o dedo gordo enquanto o coveiro
lutava para abrir a tampa do caixão. E ainda tive tempo ouvir, já chegando do
outro lado do cemitério com o dedo entre os dentes, o coveiro gritar e disparar
maldições. Depois não me lembro de nada. É como se fosse uma lembrança
nebulosa, como as lembranças do tempo que se passa dentro do ventre materno, ou
os primeiros anos da infância, ou seja: uma lembrança que não é verdadeiramente
lembrança, porque tu não lembras, mas que tu sabes que existe, ou que em algum
lugar existiu. A última lembrança que tenho é do coveiro gritando as maldições.
Se alguma delas funcionou, não sei dizer, por mais que tenha motivos
suficientes para desconfiar. Talvez descubra um dia, quando morrer. Por
enquanto continuo vivo, bem vivo. E ainda guardo a aliança de ouro no dedo que,
como mamãe me contou, encontrei no quintal de casa enquanto brincava de escavar
a terra à procura de tesouros roubados.
Elias Abner

Adorei o conto. Bem dinâmico e envolvente, bem escrito e criativo.
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