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terça-feira, 16 de setembro de 2014

OS RATOS


                Éramos ratos. Digo “éramos”, pois não sei mais o que sou hoje, e quando me perguntam se sou um homem ou um rato estanco, sempre, não sei o que responder. Naquele tempo sabia. Aliás, naquele tempo não me preocupava com esse tipo de situação, essas crises que te forçam a pensar em coisas das quais não possuis uma resposta pronta e clara, definida, assim. Éramos ratos, e só. E “só” queria dizer que levávamos uma vida normal para a espécie: corríamos pelos esgotos, revirávamos montes de lixo à procura de comida... Comíamos tudo o que aparecesse, vivo ou morto, ou podre, não fazia diferença, contanto que não morrêssemos de fome.
Nesse tempo, nosso lugar preferido era o cemitério. Ficava lá pros lados da Cidade Antiga, aquele bairro cheio de casarões velhos, com gente velha dentro cheirando a naftalina, um odor característico que parece pairar entre dois mundos: dos vivos e dos mortos. Pois era naquele cemitério em que nos reuníamos aos bandos. Proliferávamos à vontade. Corríamos pra todos os lados sem nos preocupar com o coveiro, um homem extremamente magro que vivia preocupado demais em depenar os cadáveres à procura de objetos de valor ou de ossos para vender sabe-se lá pra quem e pra quê. Às vezes o espreitávamos por entre as lápides. Nossos focinhos peludos cheirando o ar cadavérico. Quando nos via estreitava os olhos e rangia os dentes, como se fôssemos concorrentes em potencial. Mas não éramos, e ele sabia disso. Cada um procurava aquilo que o satisfazia: ele, os objetos de valor; nós, a carne fresca, com o sangue, às vezes, ainda quente. Quando ele se fartava, devolvia o caixão à cova, voltava a jogar a terra por cima. Às vezes quando estava de bom humor (e isso queria dizer quando encontrava alguma coisa de valor, um dente de outro, um anel...) deixava um buraco profundo para que pudéssemos entrar sem dificuldade e fazer a nossa parte... Então entrávamos. Centenas de nós. Cada um afoito pra pegar a melhor parte, pois nunca se sabia quando viria o próximo. Em cidadezinha assim custava-se a morrer. Então aproveitávamos. Mas nunca era o suficiente, não pra centenas de nós. Sempre tínhamos fome. Sempre! Então íamos embora: revirar o lixo, o esgoto, à procura de qualquer coisa que fosse comestível (ou não). Ou apenas íamos perambular pelas ruas na madrugada. Vez ou outra invadíamos um armazém. Mas era difícil, perigoso. Havia sempre os cachorros. Muitos de nós morreram assim, estraçalhados pelos dentes afiados de um rottweiler qualquer. Eu mesmo, uma vez, quase virei refeição. Enfiei-me num cano de esgoto no último segundo, não sem antes perder quase a metade da calda. Mas isso não vem ao caso.
                Éramos ratos, e fazia parte de nossa natureza, assim como faz parte da natureza de todo respirante, perder uma calda, um braço, uma perna: morrer.
Doía morrer?
Nunca havia me perguntado isso. Até aquela noite. Eram tempos extremamente difíceis. Chovia muito e a comida estava bastante escassa. Tudo estava raro, até mesmo morrer... Mas naquela tarde veio a notícia: haveria um enterro! A notícia se espalhou rapidamente. Foi uma algazarra entre a ratazada. E antes que o cortejo chegasse ao cemitério já estávamos à espreita, de longe, olhando pelas rachaduras das lápides e catacumbas. Os focinhos farejando o ar. Os dentes afiados urgindo por morder e estraçalhar a farta refeição. Quase conseguíamos sentir o gosto...
                O sol já estava quase se pondo quando o cortejo chegou. “Infarto”, ouvíamos as pessoas comentando. “Era um bom homem, que Deus o tenha”, “Vai fazer muita falta...”. Não ligávamos para o que fora, para o que era ou se iria fazer falta ou não. Nada disso importava. Só queríamos mesmo... comer! A natureza era assim, desde sempre. Uns morriam pra outros viverem. O capim morria, o boi vivia, o boi morria, o homem vivia, o homem morria e nós vivíamos... Simples.
                Doía morrer?
                O padre leu algumas palavras. Todos choraram mais ainda. A viúva, extremamente gorda, estava inconsolável, “Ele estava tão bem! Tão bem! Foi assim, de repente!” e caiu em prantos. Uns balançavam a cabeça. Outros assoavam o nariz. Nós esperávamos.
                Antes de descerem o caixão à cova abriram a tampa pela última vez para uma última despedida. Isso quase sempre acontecia. O conteúdo revelou um homem grande, gordo, as faces extremamente rosadas, coisa que eu nunca tinha visto num cadáver. Ele parecia ser sido um homem de posses, pois vestia um termo preto elegante e ostentava na mão esquerda uma grossa aliança de ouro. Os olhos do coveiro faiscaram por um segundo. Era hora de descer. Tamparam o caixão. Depois jogaram flores por cima. E desceram, lentamente, para desespero dos quatro rapazotes que seguravam as cordas, enquanto os demais entoavam cânticos misturados com choros e soluços.
                Assim que o caixão chegou ao fundo da cova a viúva desmaiou. Alguém a acudiu enquanto outros jogavam terra para cobrir a cova. Não ligávamos para o que estava acontecendo. Faltava muito pouco para o nosso banquete. Famintos como estávamos, seríamos os primeiros dessa vez. O coveiro que se apressasse para cavar!
Depois que cobriram completamente a cova, todos foram embora, arrastando os passos. Já anoitecia e começava a cair uma chuva leve. Era a nossa hora. Então corremos.
                Centenas de nós, saídos de todos os cantos, convergiram para a cova recém-fechada. Era questão de sobrevivência. Os que chegassem por último talvez não conseguissem comer nada e morreriam. Corri o mais depressa que pude, como da vez que fugi do rottweiler. Uns corriam do meu lado, outros, ávidos, embolavam-se em brigas por um lugar à fila e acabavam ficando para trás. Ninguém desistia, no entanto. Ouvi passos apressados: o coveiro estava rondando o local, provavelmente se perguntando se já podia fazer o seu “serviço”. Não ligamos. Começamos a cavar a terra, nossas garras ágeis jogando areia para os lados, formando túneis em direção ao esquife. Tínhamos que ser rápidos, antes que a água as chuva inundasse tudo, ou antes que o coveiro chegasse ao morto. Nisso ouvimos um baque surdo e um gemido distante. Era provável que o coveiro estivesse começado a cavar. Teríamos que nos apressar. Então nos apressamos. E quanto mais cavávamos, quanto mais nos aproximávamos do caixão, mais alto ficava o baque, mais alto os gemidos. Agora pareciam vozes, ou melhor, sussurros. Seria do coveiro? Cavávamos, cavávamos, cavávamos! Rápidos! Famintos! Os baques mais fortes, os gemidos mais fortes, a voz sussurrante agora chorava, chamava por socorro.
                Dói morrer?
                Não, essa não é uma pergunta retórica, filosófica.
                Chegamos à caixa de madeira cheirando a verniz. Para meu espanto, era de lá que vinha aquele barulho e aquela voz. Num lugar acima de nós outro barulho indicava que a terra estava sendo revolvida apressadamente. Ali em baixo, a água infiltrava-se pelos túneis abertos por nós. Tínhamos que ser mais rápidos. Restava romper a madeira. Começamos a roer. Roemos, roemos, roemos. Rápidos! Famintos! De dentro do caixão as batidas continuavam fortes, cada vez mais rápidas, a voz abafada, terrivelmente desesperada. Mas era a lei da natureza: uns morriam pra outros viverem, desde sempre. Doía morrer? Perguntei-me naquele momento quando conseguimos romper a madeira. Um cheiro forte de flores se misturou ao de lama e terra molhada. Enfiei a cabeça pela abertura. A coisa ali dentro se debatia e gritava desesperada por socorro. Em pouco tempo o coveiro iria chegar até o caixão. Em pouco tempo ele poderia salvar o homem, ou poderia matá-lo de vez, terminar o que, para todos, já havia terminado. Alguém iria saber? Mas essa era apenas uma possibilidade, ninguém saberia dizer. Ele poderia salvar o homem e depois ser recompensado de alguma forma. Mas então morreríamos de fome. Restava pouco tempo. Era ele ou nós. Era a natureza nos dando a chance de viver. Ainda lembro-me do grito que o homem deu quando cravei a primeira mordida na carne farta do seu braço. Ele gritou por um tempo, se debateu, lutou; mas era quase impossível se mexer ali dentro, quase não coube uma centena de nós... Depois ele finalmente se calou. A aliança, consegui arrancar junto com o dedo gordo enquanto o coveiro lutava para abrir a tampa do caixão. E ainda tive tempo ouvir, já chegando do outro lado do cemitério com o dedo entre os dentes, o coveiro gritar e disparar maldições. Depois não me lembro de nada. É como se fosse uma lembrança nebulosa, como as lembranças do tempo que se passa dentro do ventre materno, ou os primeiros anos da infância, ou seja: uma lembrança que não é verdadeiramente lembrança, porque tu não lembras, mas que tu sabes que existe, ou que em algum lugar existiu. A última lembrança que tenho é do coveiro gritando as maldições. Se alguma delas funcionou, não sei dizer, por mais que tenha motivos suficientes para desconfiar. Talvez descubra um dia, quando morrer. Por enquanto continuo vivo, bem vivo. E ainda guardo a aliança de ouro no dedo que, como mamãe me contou, encontrei no quintal de casa enquanto brincava de escavar a terra à procura de tesouros roubados.


Elias Abner


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A dança

Fiquei feliz ao ver o rosto complacente daquela senhora á beira da minha cama. Eu não sabia exatamente onde estava, a febre alta me causava confusão mental. Mas, ao acordar, senti um imenso medo de estar sozinho.
Qual não foi meu alívio ao ver que aquela senhora me olhava como a um filho, embora eu não me lembrasse de já tê-la visto antes. Tentei me sentar, mas ela, gentilmente, tocou-me a testa e me fez permanecer quieto, sob o cobertor. Pegou um pano e umedeceu-o em uma pequena bacia contendo água e álcool, o que eu pude identificar pelo cheiro.
Fiquei imóvel, obedecendo a uma ordem muda, transmitida unicamente pelo cuidado com que a senhora me tratava. Lembrei-me de minha mãe, de quando ela, incansavelmente, se preocupava com meus delírios noturnos. Me senti tão cheio de cuidados que até sorri. Ela também sorriu, como se já esperasse aquela minha reação.
No embalo desse surpreendente carinho, acabei adormecendo.
Acordei, no outro dia, me sentindo bastante revigorado. Consegui engolir todas aquelas sopas, caldos e coisas sem graça que são servidas nos hospitais. Eu estava feliz. Quase ao meio dia, vi a senhora (eu não conseguia olhá-la como uma simples enfermeira) entrar no quarto, ir direto à cama de um outro paciente e me sorrir, pouco antes de sair. Meu quadro já apresentava uma considerável melhora.
Passada uma semana, eu me vi tendo uma recaída. A febre voltara violenta e as dores no abdômen também. Vomitei várias vezes durante a noite, enquanto a senhora, pacientemente, limpava toda a minha sujeira e acalmava as minhas convulsões. Mas, apesar dessa minha recaída, os médicos se demonstravam otimistas. Eu estava melhorando e isso os agradava imensamente. Graças à “enfermeira noturna”, da qual eu nunca lembrei de perguntar o nome.

Passaram-se mais uma... duas... três noites em que ela simplesmente entrava no quarto, ia até uma das camas e, sem muito demorar-se, ia embora. Eu, por dias, me senti abandonado pois vi que, enquanto uma enfermeira fria e apática se encarregava de meus cuidados, ela, a senhora, dedicava sua atenção a outro. Sentia-me enciumado e já me via saindo daquele hospital sem que ela voltasse a mim. Até que, em uma noite, ela veio novamente sentar-se à beira de minha cama, segurou-me a mão como se pedisse desculpa e, num gesto suave, levantou-me, sorrindo. Eu a puxei como se a tirasse para dançar, ela, ignorando a idade, encaixou-se em mim. Divertidos, rodopiamos alguns segundos, até que meus olhos alcançaram a figura de mim mesmo, inerte e pálido sobre a cama.

Jaci Amaral

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Rua Ramalhete



As flores amanheceram um tanto cinza naquele dia. A neblina da manhã tornava mais melancólica a paisagem que entrou pelos olhos de Ícaro. Essa mescla de cinza com azul celeste conferia à sua retina um ar fúnebre. Mas Ícaro não estava reparando nas flores, por belas que fossem. Como um Cristo que segue rumo ao maldito destino, arrastava-se ele pelas ruas, com passos pesados e barulhentos. Tinha por vezes, a incomoda impressão de estar sendo seguido. Olhava apaticamente ao redor para confirmar suas suspeitas. Suspirou pesado ao constatar que estava errado... a não ser que se tratassem de forças sobrenaturais, pensou... e, com um bilhete em mãos, seguia...   
Parou e instalou-se pensativamente diante da porta, enquanto fumava melancólico cigarro. Aparentava, pelo semblante, uma calma e uma passividade que lhe eram característicos. Olhou pela enésima vez o conteúdo do bilhete: Rua Ramalhete, nº 13, Ass: Heitor.  Roçava com a ponta áspera do dedo a superfície do papel, enquanto um filme lhe passava diante dos olhos: o encontro inesperado em uma lanchonete, o sorriso, o comprimento... e a vida a dois. Seus dedos tamborilavam nervosamente sobre as coxas. As cinzas do cigarro espalhavam-se pelo ar. Havia algo de poético naquilo. Olhou agora para a porta, para o seu azul vívido. Acho que os portais do céu são tingidos com esse mesmo azul. 
Agora parecia um pouco apreensivo. Alisava meditativamente a coronha do revolver. No cabo, uma paisagem de uma porteira e um cavalo empinado. Mandou fazer esse desenho para expressar sua afeição pela vida campestre. Gostava de caçar. E hoje seria sua última caça. A mais mortal. Ouve-se uma movimentação lá dentro. O momento se aproxima. Seus olhos o traem: deixam refletir a tensão do momento final. Haveria de ser assim? Indigna morte - pensou. Mas merecida. Reparou no calendário ao lado. Era 22 de julho. Dia simbólico. Nesse dia contraiu núpcias. Traiu-se - pensou. Agora era o gato que lhe chamava a atenção. Olhou pros seus olhos enigmáticos. Imaginou o formato que se desenharia na parede com filetes de sangue. Os olhos desse gato. Seria bem simbólico. Sorriu um sorriso vago, frouxo, demente.
Um rangido penetra em suas retinas e fere seu corpo. Pela primeira vez, sentiu medo. Não raiva ou desilusão, mas medo. E um medo que, Meu Deus, não esperava sentir. A porta finalmente se abre. Dois pés adúlteros atravessam a linha do portal. Era simbólica essa travessia. Para de súbito diante daquele rosto, e a feminina feição de alva se torna rubra. Recua, assustada. Ele olha cinza e seus olhos agora parecem vagar... um grito ecoa, fúnebre, pelos corredores... a arma se ergue perdida, não sabe que direção vai tomar... dentro do quarto, um homem assustado esconde-se. Diante de um cano metálico, até a virilidade se curva. Um estampido ensurdecedor reverbera no recinto... a bagana do cigarro descreve um círculo no ar, e ele tomba e cai. A última coisa que vê são um par de olhos aflitos e o azul daquela porta que deveria ter o mesmo tom do portal pelo qual agora deveria entrar.
[...]
Mãos tremulas, mas agora consoladas, recolhem o bilhete e a bagana. O primeiro tem por destino o decote do sutiã. A segunda encontra espaço entre os lábios melados de sêmen. Ela volta para o quarto e se entrega ao amante. Amam-se como se nunca houvessem se amado. Copulam a cópula mais prazerosa de suas ímpias vidas...

Joey Motta


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Véu de Lágrimas.

Há semanas o estado de Estevan era considerado terminal pelos médicos. Ele lutou contra o câncer nos últimos nove meses. Os pais dele não conseguiam aceitar o fato de terem perdido um filho com apenas 21 anos. No chuveiro, Clarice permanecia imóvel, seus cabelos escuros serpenteavam pelos ombros, a água escorria através da pele -no rosto- se misturavam às lágrimas. A moça de corpo esguio já permanecia estática há 20 minutos, talvez seu desejo fosse de que a água lavasse muito além da superfície do seu corpo. Nada se podia fazer ouvir em seu apartamento , além do som da água que caia no chão do banheiro.
A cama estava arrumada, os lençóis eram brancos, o chão era acarpetado em um tapete de cor bege. Sentada perante a penteadeira de madeira vermelha, Clarice se encarava no espelho, os olhos enormes e esverdeados eram fixos.  O silêncio do quarto fazia com que a garota conseguisse ouvir a própria respiração. No balcão da penteadeira, produtos de cabelo e diversos tipos de maquiagem dividiam lugar com perfumes e um porta-retrato com uma foto dela acompanhada de Estevan.  Ela vestia um hobby bordô, procurava pelo secador de cabelo quando o telefone tocou.  A jovem parou por um momento e tomou o celular nas mãos de cima da cama, identificou o número que originava a chamada, mas não o atendeu.
Naquela tarde de primavera, provavelmente, os pais de Estevan já estariam na capela mortuária, Lucas, o filho mais velho do casal, havia ficado de prontidão ao lado do corpo até que tudo estivesse pronto para a cerimônia de velório.  O rosto que Clarice via no espelho era lânguido, os olhos que outrora eram iluminados como esmeraldas, agora pesavam de um vermelho como rubi.  Ela escovava os cabelos, agora secos, enquanto fitava o retrato a sua frente. A foto havia sido feita no baile de formatura de Lucas, o rosto da garota cintilava às cores das luzes do salão de festas, enquanto o de Lucas esboçava um sorriso largo, de uma enorme felicidade ao lado dela.  
Na capela mortuária, o salão de cerimônias só foi aberto após a chegada de Clarice, Lucas estava profundamente abatido, seus cabelos castanhos estavam despenteados, as olheiras eram profundas. Ele foi o primeiro a receber o abraço da garota. Leonor e Alberto estavam arrumados, Leonor mantinha uma postura controlada, tinha os cabelos arrumados em um coque elegante, entretanto, Alberto chorava inconsolavelmente, seu rosto inteiro estava avermelhado, a face enrugada, segurou por algum tempo as mãos de Clarice ao vê-la novamente.  O corpo de Estevan havia sido cuidado, estava vestido de camisa de linho branca e calça em risca de giz azul escura.  O cadáver era magro, as encovas dos olhos fundos, há meses já vinham se tornando escuras, de um semblante doentio.
Muitas condolências foram derramadas ao longo de toda a tarde.  Naturalmente, um jovem rapaz teria muitos amigos, dessa forma, muitas pessoas enchiam o local.  Estevan não tinha tios e seus avós não estavam mais vivos, assim, todos além dos pais e do irmão- exceto Clarice- eram amigos ou conhecidos.  Lucas conversava com todos, recebia apertos de mão, abraços, chorava ao lado de amigos, enquanto Leonor comentava, em tom de voz firme, sem titubear, como haviam sido as últimas semanas na quimioterapia, isto é, os últimos dias de vida do filho caçula. Era uma mulher muito forte, que estivera ao lado do filho durante todo o período de tratamento, na verdade, ela sempre fora o esteio da família, a pessoa mais forte daquele lar, capaz de carregar o peso de toda uma vida nas costas, mas sem nunca reclamar, em nome da felicidade da família.
Alberto estava desolado, por muitas vezes Lucas precisou contê-lo em seu sofrimento, ele se debruçava sobre o corpo do filho morto, de um choro estrondoso que explodia através de gritos graves.  Muitos dos amigos de Estevan contavam histórias entre si, de como o rapaz era alegre e a respeito de como essa alegria era contagiante. Sempre fora de uma positividade tremenda.  Era sensível, de uma empatia quase sobrenatural. Todos tentavam ser atenciosos com Clarice, recordando momentos e tentando ampará-la. Durante praticamente toda a tarde, ela se manteve ao lado do caixão, tocando com a mão direita a mão esquerda do amado.  Quando Sofia chegou, Clarice encarava o rosto daquele que houvera sido tirado de forma tão abrupta de sua vida. A quem via de longe, o que parecia é que Clarice, de alguma forma, esperava que ele dali se levantasse.  Sofia tocou levemente o braço esquerdo de Clarice, os rostos das duas se encontraram, por um momento, Clarice soltou a mão de Estevan.
-Eu sinto tanto, tanto. Desculpe-me por não ter podido passar mais tempo contigo nessas últimas semanas. Sofia dizia enquanto abraçava Clarice.
-Eu entendo que você não pôde, mas que bom que você está aqui agora - Clarice dizia entre lágrimas. As duas continuaram abraçadas por minutos. Cochicharam coisas uma no ouvido da outra. Quando se afastaram, Clarice voltou a segurar a mão de Estevan. Sofia afastou uma mecha loira de cabelo do rosto e disse:
-Ele está tão diferente, não é? A doença realmente o consumiu de uma maneira muito cruel.
-Sabe - Clarice falou gaguejando- eu sentia a vida sendo arrancada dele aos poucos, era cada vez mais difícil sorrir, conversar, se manter aqui. De alguma forma, eu sentia que o homem que eu amava já não estava mais inteiramente ao meu lado.  Que eu o estava perdendo independentemente do que eu fizesse ou dissesse. Sentia-me impotente. Por vezes, eu desejei poder retirar de dentro dele tudo o que a doença havia trazido de ruim. Deus sabe como eu desejei.  Mas eu não consegui- fios de lágrimas escorriam do rosto de Clarice- eu não consegui fazer com que ele melhorasse, eu queria poder ajudá-lo, fazer com que ele se sentisse melhor, mas eu não consegui. Eu simplesmente não conseguia. Eu tenho me arrependido tanto de todas as nossas brigas, de tudo de ruim que dissemos um ao outro por uma questão de ego, para provar que um dos dois tinha mais razão do que o outro. Isso foi tudo tolice. Eu não sabia que eu não precisava estar certa sobre tudo o tempo inteiro.
-Clarice, não. Você não deve absorver essa culpa. Ele te amava, obviamente que o que ele desejava é que você estivesse com ele nestes últimos dias- sua voz era terna- e foi o que você fez, não se culpe, Clarice, por favor. A culpa não é sua. Você não tem culpa nenhuma pela doença dele.
-Eu não tenho, não é? Eu fiquei do lado dele.  Ah, meu amor- sua mão esquerda agora tocava levemente o rosto do cadáver- você sofreu tanto, é tão difícil lidar com o sofrimento de alguém que se ama e se sentir impotente em relação a isso.
-Ele perdeu  muito peso durante os últimos meses, não é?
-Sim, ele respondia muito mal às sessões de quimioterapia. 
-Ele era tão bonito.
-Ele era lindo- os dedos de Clarice corriam pelos lábios roxos de Estevan- Foi muito difícil ver os cabelos dele caírem, eles eram tão lindos, logo tiveram que raspar a sua cabeça. Na verdade, foi a primeira das coisas de que ele teve que abrir mão: dos seus cachos ruivos. Aos poucos, a barba dele, que era tão farta, repleta de lindos fios acobreados e avermelhados, também foi deixando de crescer em diversos pontos.  Ele foi desfalecendo, ficando esquálido, perdera peso. Eu sentia que assim como os seus cabelos ruivos, a vida também o deixava, aos poucos, ao longo dos meses.
As duas permaneceram caladas por alguns segundos. Foi Sofia quem quebrou o silêncio.
-Ouça, o que você acha de dormir no meu apartamento esta noite? Não acho que seja uma boa ideia você ficar sozinha no seu apartamento. Por favor, vamos?
-Obrigada por tentar me ajudar. De fato, eu não sei se devo ficar sozinha nas próximas horas.
-Sim, ainda mais no seu apartamento, um lugar repleto de lembranças do seu relacionamento com o Estevan.  Não que eu queira dizer que você precisa esquecê-lo, mas é que eu gostaria de ajudar você a passar por isso da forma menos dolorosa possível.  Sua mão tocava o ombro da amiga.
-Eu não sei ao certo sobre nada mais. É muito difícil pensar que tudo aquilo que se sonhava construir com alguém simplesmente não vai acontecer- agora ela repousava as duas mãos sobre a mão direita do namorado morto- eu tenho sofrido tanto. Fizemos tantos planos, pensamos em uma vida juntos. Agora, creio que o único véu que eu usarei um dia será de lágrimas, um véu eterno de sofrimento e luto. Como eu devo me acostumar agora a não tê-lo mais aqui? De que maneira eu devo aceitar o fato de que agora eu estou sozinha? E todas as nossas conversas, como irei conseguir acordar à noite e superar o fato de que ele não estará ali na cama, ao meu lado? O que eu devo fazer com todas as declarações de amor? Meus sonhos estão em pedaços. Eu me sinto como se afundasse lentamente em águas muito escuras, como se eu também estivesse morrendo- sufocando- não tenho sabido lidar com que fora arrancado de mim.

- Clarice, agora Sofia também chorava- Eu não sei o que dizer. Desculpe-me. 




Evimarcio Aguiar

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Pastor Alemão


É com extrema vergonha e remorso que lhes narro alguns acontecimentos da minha vida. Acontecimentos estes que eu poderia guardar apenas para mim, mas que acho importante compartilhar, mesmo que a estória a ser narrada desperte a repulsa de muitos pela minha pessoa.
Quando criança eu morava em um sítio aos arredores da cidade de Vila Rica, interior do estado do Mato Grosso, e sempre tive um temperamento calmo, gentil e amoroso. Meus pais, agricultores, me criaram livre e me ensinaram desde cedo a tratar bem pessoas, animais e plantas, e eu, nunca os decepcionava. Com sete anos ganhei meu primeiro animal de estimação, um coelho, que eu o chamei de Papel, devido ao fato dele ser totalmente branco. Depois disso já tive um jabuti, um pato, dois gatos, um papagaio e até um bezerro. Cuidei de todos eles com muita dedicação e carinho e eles me retribuíram com o entretenimento e a amizade, e me acompanharam por anos.
Já adulto, me casei e fui morar na cidade de Barra do Garças, também no Mato Grosso. Minha esposa, que compartilhava da mesma vontade e carinho pelos animais, viu em mim o quanto aquela mudança estava afetando minha vida. Morávamos em um apartamento no subúrbio da cidade, sem árvores, rio, espaço, liberdade e, principalmente, sem animais.  E isso me fazia muita falta, principalmente porque Flávia, minha esposa, passava o dia inteiro fora de casa, trabalhando, e eu, desempregado.
Certo dia, Flávia voltou do trabalho trazendo três filhotes: um gato, um coelho e um cão. Foi uma surpresa e tanto. Fiquei muito feliz, e agradeci pelo seu gesto tão carinhoso. Ela não fazia ideia do quanto aquilo significava para mim.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Estase



Brilhava. As cores dançavam em seus olhos. Dançavam e morriam. As estrelas caiam do céu e se espalhavam em seu corpo. O vinho era barato. O vinho tinha gosto de vômito. Ela sorria. Ela conhecia agora a superioridade da existência e isso tinha gosto de vinho barato. Podia ao menos ter tido dignidade. Mas que importava? Dignidade é para os tolos. Ela não precisava de dignidade. Não precisava mais disso. Não precisava de mais nada. Era tão bom não precisar de mais nada. Isso dava a ela uma sensação estar flutuando com os peixinhos no fundo do oceano. E ela podia fazer isso. Ela era o próprio oceano e os peixinhos brincavam em seus cabelos. Brilhava. Brilhava como um farol iluminando o caminho das embarcações.
Ela sorria. O corpo ao mesmo tempo pesava e perdia a noção de si. O dia amanhecia bonito. Naquela manhã a roseira que plantara num vaso junto à janela floresceu pela primeira vez. O aroma era gostoso. A rosa despertava devagar. Tudo era silêncio. Era ela e a rosa. Ela sorria. O cheiro daquela manhã era diferente, esquecia-se até do cheiro da fumaça dos motores, da poeira, do cheiro de mijo que enfestava as ruas. Ela ia esquecendo tudo como se tudo fosse aos poucos deixando de existir. Ela um dia teve medo de deixar de existir, mas até mesmo isso parecia acabar. Deixar de existir era agora necessidade.
Brilhava. Mas agora era uma luz fosca. O corpo tremia. Não tivera um dia de angústias ou desespero. Acordou cedo, ouviu alguma música, andou pela cidade. Foi um dia bom. Naquele dia tivera absoluta certeza. O corpo tremia e sentia frio, o sorriso era agora uma contração em seu rosto. O vinho se espalhava pelo chão. Parecia que ia vomitar, mas não podia. Vomitara a vida inteira, isso não era mais necessário. Seu estômago se retorcia, mas o que estava lá ficaria lá. A dor não era maior do que o prazer.
Sentia frio e a luz aos poucos se apagava. Não. Eram os olhos que pesavam, a luz continuava lá. Sentia o suor se derramando por cada poro de seu corpo. Sentia o ar se arrastando em seus pulmões. O coração saltando em seu peito batia forte, mas devagar. Não podia mais se mexer, como se não fosse mais um corpo, mas estava leve. Ela era uma pluma flutuando no ar. Um pássaro que estende suas asas ao céu e se deixa levar. A luz era um dourado vibrante. Rastros de sol beijavam o vinho espalhado no chão. Cintilava. Era bom ouvir o silêncio.
O que restava? Seus olhos entreabertos, o meio sorriso em seus lábios, seu corpo de mármore. O sol beijava seus lábios em segredo. Adormecida. O que restava? Silêncio. O vento entrava pela janela e fazia exalar o cheiro da rosa. A cidade acordava. Os cheiros, as cores, as vozes, tudo evaporava. O que restava? O brilho fosco da eternidade em seus olhos. 


Samantha de Sousa