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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Véu de Lágrimas.

Há semanas o estado de Estevan era considerado terminal pelos médicos. Ele lutou contra o câncer nos últimos nove meses. Os pais dele não conseguiam aceitar o fato de terem perdido um filho com apenas 21 anos. No chuveiro, Clarice permanecia imóvel, seus cabelos escuros serpenteavam pelos ombros, a água escorria através da pele -no rosto- se misturavam às lágrimas. A moça de corpo esguio já permanecia estática há 20 minutos, talvez seu desejo fosse de que a água lavasse muito além da superfície do seu corpo. Nada se podia fazer ouvir em seu apartamento , além do som da água que caia no chão do banheiro.
A cama estava arrumada, os lençóis eram brancos, o chão era acarpetado em um tapete de cor bege. Sentada perante a penteadeira de madeira vermelha, Clarice se encarava no espelho, os olhos enormes e esverdeados eram fixos.  O silêncio do quarto fazia com que a garota conseguisse ouvir a própria respiração. No balcão da penteadeira, produtos de cabelo e diversos tipos de maquiagem dividiam lugar com perfumes e um porta-retrato com uma foto dela acompanhada de Estevan.  Ela vestia um hobby bordô, procurava pelo secador de cabelo quando o telefone tocou.  A jovem parou por um momento e tomou o celular nas mãos de cima da cama, identificou o número que originava a chamada, mas não o atendeu.
Naquela tarde de primavera, provavelmente, os pais de Estevan já estariam na capela mortuária, Lucas, o filho mais velho do casal, havia ficado de prontidão ao lado do corpo até que tudo estivesse pronto para a cerimônia de velório.  O rosto que Clarice via no espelho era lânguido, os olhos que outrora eram iluminados como esmeraldas, agora pesavam de um vermelho como rubi.  Ela escovava os cabelos, agora secos, enquanto fitava o retrato a sua frente. A foto havia sido feita no baile de formatura de Lucas, o rosto da garota cintilava às cores das luzes do salão de festas, enquanto o de Lucas esboçava um sorriso largo, de uma enorme felicidade ao lado dela.  
Na capela mortuária, o salão de cerimônias só foi aberto após a chegada de Clarice, Lucas estava profundamente abatido, seus cabelos castanhos estavam despenteados, as olheiras eram profundas. Ele foi o primeiro a receber o abraço da garota. Leonor e Alberto estavam arrumados, Leonor mantinha uma postura controlada, tinha os cabelos arrumados em um coque elegante, entretanto, Alberto chorava inconsolavelmente, seu rosto inteiro estava avermelhado, a face enrugada, segurou por algum tempo as mãos de Clarice ao vê-la novamente.  O corpo de Estevan havia sido cuidado, estava vestido de camisa de linho branca e calça em risca de giz azul escura.  O cadáver era magro, as encovas dos olhos fundos, há meses já vinham se tornando escuras, de um semblante doentio.
Muitas condolências foram derramadas ao longo de toda a tarde.  Naturalmente, um jovem rapaz teria muitos amigos, dessa forma, muitas pessoas enchiam o local.  Estevan não tinha tios e seus avós não estavam mais vivos, assim, todos além dos pais e do irmão- exceto Clarice- eram amigos ou conhecidos.  Lucas conversava com todos, recebia apertos de mão, abraços, chorava ao lado de amigos, enquanto Leonor comentava, em tom de voz firme, sem titubear, como haviam sido as últimas semanas na quimioterapia, isto é, os últimos dias de vida do filho caçula. Era uma mulher muito forte, que estivera ao lado do filho durante todo o período de tratamento, na verdade, ela sempre fora o esteio da família, a pessoa mais forte daquele lar, capaz de carregar o peso de toda uma vida nas costas, mas sem nunca reclamar, em nome da felicidade da família.
Alberto estava desolado, por muitas vezes Lucas precisou contê-lo em seu sofrimento, ele se debruçava sobre o corpo do filho morto, de um choro estrondoso que explodia através de gritos graves.  Muitos dos amigos de Estevan contavam histórias entre si, de como o rapaz era alegre e a respeito de como essa alegria era contagiante. Sempre fora de uma positividade tremenda.  Era sensível, de uma empatia quase sobrenatural. Todos tentavam ser atenciosos com Clarice, recordando momentos e tentando ampará-la. Durante praticamente toda a tarde, ela se manteve ao lado do caixão, tocando com a mão direita a mão esquerda do amado.  Quando Sofia chegou, Clarice encarava o rosto daquele que houvera sido tirado de forma tão abrupta de sua vida. A quem via de longe, o que parecia é que Clarice, de alguma forma, esperava que ele dali se levantasse.  Sofia tocou levemente o braço esquerdo de Clarice, os rostos das duas se encontraram, por um momento, Clarice soltou a mão de Estevan.
-Eu sinto tanto, tanto. Desculpe-me por não ter podido passar mais tempo contigo nessas últimas semanas. Sofia dizia enquanto abraçava Clarice.
-Eu entendo que você não pôde, mas que bom que você está aqui agora - Clarice dizia entre lágrimas. As duas continuaram abraçadas por minutos. Cochicharam coisas uma no ouvido da outra. Quando se afastaram, Clarice voltou a segurar a mão de Estevan. Sofia afastou uma mecha loira de cabelo do rosto e disse:
-Ele está tão diferente, não é? A doença realmente o consumiu de uma maneira muito cruel.
-Sabe - Clarice falou gaguejando- eu sentia a vida sendo arrancada dele aos poucos, era cada vez mais difícil sorrir, conversar, se manter aqui. De alguma forma, eu sentia que o homem que eu amava já não estava mais inteiramente ao meu lado.  Que eu o estava perdendo independentemente do que eu fizesse ou dissesse. Sentia-me impotente. Por vezes, eu desejei poder retirar de dentro dele tudo o que a doença havia trazido de ruim. Deus sabe como eu desejei.  Mas eu não consegui- fios de lágrimas escorriam do rosto de Clarice- eu não consegui fazer com que ele melhorasse, eu queria poder ajudá-lo, fazer com que ele se sentisse melhor, mas eu não consegui. Eu simplesmente não conseguia. Eu tenho me arrependido tanto de todas as nossas brigas, de tudo de ruim que dissemos um ao outro por uma questão de ego, para provar que um dos dois tinha mais razão do que o outro. Isso foi tudo tolice. Eu não sabia que eu não precisava estar certa sobre tudo o tempo inteiro.
-Clarice, não. Você não deve absorver essa culpa. Ele te amava, obviamente que o que ele desejava é que você estivesse com ele nestes últimos dias- sua voz era terna- e foi o que você fez, não se culpe, Clarice, por favor. A culpa não é sua. Você não tem culpa nenhuma pela doença dele.
-Eu não tenho, não é? Eu fiquei do lado dele.  Ah, meu amor- sua mão esquerda agora tocava levemente o rosto do cadáver- você sofreu tanto, é tão difícil lidar com o sofrimento de alguém que se ama e se sentir impotente em relação a isso.
-Ele perdeu  muito peso durante os últimos meses, não é?
-Sim, ele respondia muito mal às sessões de quimioterapia. 
-Ele era tão bonito.
-Ele era lindo- os dedos de Clarice corriam pelos lábios roxos de Estevan- Foi muito difícil ver os cabelos dele caírem, eles eram tão lindos, logo tiveram que raspar a sua cabeça. Na verdade, foi a primeira das coisas de que ele teve que abrir mão: dos seus cachos ruivos. Aos poucos, a barba dele, que era tão farta, repleta de lindos fios acobreados e avermelhados, também foi deixando de crescer em diversos pontos.  Ele foi desfalecendo, ficando esquálido, perdera peso. Eu sentia que assim como os seus cabelos ruivos, a vida também o deixava, aos poucos, ao longo dos meses.
As duas permaneceram caladas por alguns segundos. Foi Sofia quem quebrou o silêncio.
-Ouça, o que você acha de dormir no meu apartamento esta noite? Não acho que seja uma boa ideia você ficar sozinha no seu apartamento. Por favor, vamos?
-Obrigada por tentar me ajudar. De fato, eu não sei se devo ficar sozinha nas próximas horas.
-Sim, ainda mais no seu apartamento, um lugar repleto de lembranças do seu relacionamento com o Estevan.  Não que eu queira dizer que você precisa esquecê-lo, mas é que eu gostaria de ajudar você a passar por isso da forma menos dolorosa possível.  Sua mão tocava o ombro da amiga.
-Eu não sei ao certo sobre nada mais. É muito difícil pensar que tudo aquilo que se sonhava construir com alguém simplesmente não vai acontecer- agora ela repousava as duas mãos sobre a mão direita do namorado morto- eu tenho sofrido tanto. Fizemos tantos planos, pensamos em uma vida juntos. Agora, creio que o único véu que eu usarei um dia será de lágrimas, um véu eterno de sofrimento e luto. Como eu devo me acostumar agora a não tê-lo mais aqui? De que maneira eu devo aceitar o fato de que agora eu estou sozinha? E todas as nossas conversas, como irei conseguir acordar à noite e superar o fato de que ele não estará ali na cama, ao meu lado? O que eu devo fazer com todas as declarações de amor? Meus sonhos estão em pedaços. Eu me sinto como se afundasse lentamente em águas muito escuras, como se eu também estivesse morrendo- sufocando- não tenho sabido lidar com que fora arrancado de mim.

- Clarice, agora Sofia também chorava- Eu não sei o que dizer. Desculpe-me. 




Evimarcio Aguiar

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