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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Rua Ramalhete



As flores amanheceram um tanto cinza naquele dia. A neblina da manhã tornava mais melancólica a paisagem que entrou pelos olhos de Ícaro. Essa mescla de cinza com azul celeste conferia à sua retina um ar fúnebre. Mas Ícaro não estava reparando nas flores, por belas que fossem. Como um Cristo que segue rumo ao maldito destino, arrastava-se ele pelas ruas, com passos pesados e barulhentos. Tinha por vezes, a incomoda impressão de estar sendo seguido. Olhava apaticamente ao redor para confirmar suas suspeitas. Suspirou pesado ao constatar que estava errado... a não ser que se tratassem de forças sobrenaturais, pensou... e, com um bilhete em mãos, seguia...   
Parou e instalou-se pensativamente diante da porta, enquanto fumava melancólico cigarro. Aparentava, pelo semblante, uma calma e uma passividade que lhe eram característicos. Olhou pela enésima vez o conteúdo do bilhete: Rua Ramalhete, nº 13, Ass: Heitor.  Roçava com a ponta áspera do dedo a superfície do papel, enquanto um filme lhe passava diante dos olhos: o encontro inesperado em uma lanchonete, o sorriso, o comprimento... e a vida a dois. Seus dedos tamborilavam nervosamente sobre as coxas. As cinzas do cigarro espalhavam-se pelo ar. Havia algo de poético naquilo. Olhou agora para a porta, para o seu azul vívido. Acho que os portais do céu são tingidos com esse mesmo azul. 
Agora parecia um pouco apreensivo. Alisava meditativamente a coronha do revolver. No cabo, uma paisagem de uma porteira e um cavalo empinado. Mandou fazer esse desenho para expressar sua afeição pela vida campestre. Gostava de caçar. E hoje seria sua última caça. A mais mortal. Ouve-se uma movimentação lá dentro. O momento se aproxima. Seus olhos o traem: deixam refletir a tensão do momento final. Haveria de ser assim? Indigna morte - pensou. Mas merecida. Reparou no calendário ao lado. Era 22 de julho. Dia simbólico. Nesse dia contraiu núpcias. Traiu-se - pensou. Agora era o gato que lhe chamava a atenção. Olhou pros seus olhos enigmáticos. Imaginou o formato que se desenharia na parede com filetes de sangue. Os olhos desse gato. Seria bem simbólico. Sorriu um sorriso vago, frouxo, demente.
Um rangido penetra em suas retinas e fere seu corpo. Pela primeira vez, sentiu medo. Não raiva ou desilusão, mas medo. E um medo que, Meu Deus, não esperava sentir. A porta finalmente se abre. Dois pés adúlteros atravessam a linha do portal. Era simbólica essa travessia. Para de súbito diante daquele rosto, e a feminina feição de alva se torna rubra. Recua, assustada. Ele olha cinza e seus olhos agora parecem vagar... um grito ecoa, fúnebre, pelos corredores... a arma se ergue perdida, não sabe que direção vai tomar... dentro do quarto, um homem assustado esconde-se. Diante de um cano metálico, até a virilidade se curva. Um estampido ensurdecedor reverbera no recinto... a bagana do cigarro descreve um círculo no ar, e ele tomba e cai. A última coisa que vê são um par de olhos aflitos e o azul daquela porta que deveria ter o mesmo tom do portal pelo qual agora deveria entrar.
[...]
Mãos tremulas, mas agora consoladas, recolhem o bilhete e a bagana. O primeiro tem por destino o decote do sutiã. A segunda encontra espaço entre os lábios melados de sêmen. Ela volta para o quarto e se entrega ao amante. Amam-se como se nunca houvessem se amado. Copulam a cópula mais prazerosa de suas ímpias vidas...

Joey Motta


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