As flores amanheceram um tanto cinza naquele dia. A
neblina da manhã tornava mais melancólica a paisagem que entrou pelos olhos de
Ícaro. Essa mescla de cinza com azul celeste conferia à sua retina um ar
fúnebre. Mas Ícaro não estava reparando nas flores, por belas que fossem. Como
um Cristo que segue rumo ao maldito destino, arrastava-se ele pelas ruas, com
passos pesados e barulhentos. Tinha por vezes, a incomoda impressão de estar
sendo seguido. Olhava apaticamente ao redor para confirmar suas suspeitas.
Suspirou pesado ao constatar que estava errado... a não ser que se tratassem de
forças sobrenaturais, pensou... e, com um bilhete em mãos,
seguia...
Parou e instalou-se pensativamente diante da porta,
enquanto fumava melancólico cigarro. Aparentava, pelo semblante, uma calma e
uma passividade que lhe eram característicos. Olhou pela enésima vez o conteúdo
do bilhete: Rua Ramalhete, nº 13, Ass: Heitor. Roçava com a ponta áspera
do dedo a superfície do papel, enquanto um filme lhe passava diante dos olhos:
o encontro inesperado em uma lanchonete, o sorriso, o comprimento... e a vida a
dois. Seus dedos tamborilavam nervosamente sobre as coxas. As cinzas do cigarro
espalhavam-se pelo ar. Havia algo de poético naquilo. Olhou agora para a porta,
para o seu azul vívido. Acho que os portais do céu são tingidos com esse mesmo
azul.
Agora parecia um pouco apreensivo. Alisava
meditativamente a coronha do revolver. No cabo, uma paisagem de uma porteira e
um cavalo empinado. Mandou fazer esse desenho para expressar sua afeição pela
vida campestre. Gostava de caçar. E hoje seria sua última caça. A mais mortal.
Ouve-se uma movimentação lá dentro. O momento se aproxima. Seus olhos o traem:
deixam refletir a tensão do momento final. Haveria de ser assim? Indigna morte
- pensou. Mas merecida. Reparou no calendário ao lado. Era 22 de julho. Dia
simbólico. Nesse dia contraiu núpcias. Traiu-se - pensou. Agora era o gato que
lhe chamava a atenção. Olhou pros seus olhos enigmáticos. Imaginou o formato
que se desenharia na parede com filetes de sangue. Os olhos desse gato. Seria
bem simbólico. Sorriu um sorriso vago, frouxo, demente.
Um rangido penetra em suas retinas e fere seu corpo.
Pela primeira vez, sentiu medo. Não raiva ou desilusão, mas medo. E um medo
que, Meu Deus, não esperava sentir. A porta finalmente se abre. Dois pés
adúlteros atravessam a linha do portal. Era simbólica essa travessia. Para de
súbito diante daquele rosto, e a feminina feição de alva se torna rubra. Recua,
assustada. Ele olha cinza e seus olhos agora parecem vagar... um grito ecoa,
fúnebre, pelos corredores... a arma se ergue perdida, não sabe que direção vai
tomar... dentro do quarto, um homem assustado esconde-se. Diante de um cano
metálico, até a virilidade se curva. Um estampido ensurdecedor reverbera no
recinto... a bagana do cigarro descreve um círculo no ar, e ele tomba e cai. A
última coisa que vê são um par de olhos aflitos e o azul daquela porta que
deveria ter o mesmo tom do portal pelo qual agora deveria entrar.
[...]
Mãos tremulas, mas agora consoladas, recolhem o
bilhete e a bagana. O primeiro tem por destino o decote do sutiã. A segunda
encontra espaço entre os lábios melados de sêmen. Ela volta para o quarto e se
entrega ao amante. Amam-se como se nunca houvessem se amado. Copulam a cópula
mais prazerosa de suas ímpias vidas...
Joey Motta
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