Brilhava. As
cores dançavam em seus olhos. Dançavam e morriam. As estrelas caiam do céu e se
espalhavam em seu corpo. O vinho era barato. O vinho tinha gosto de vômito. Ela
sorria. Ela conhecia agora a superioridade da existência e isso tinha gosto de
vinho barato. Podia ao menos ter tido dignidade. Mas que importava? Dignidade é
para os tolos. Ela não precisava de dignidade. Não precisava mais disso. Não
precisava de mais nada. Era tão bom não precisar de mais nada. Isso dava a ela
uma sensação estar flutuando com os peixinhos no fundo do oceano. E ela podia
fazer isso. Ela era o próprio oceano e os peixinhos brincavam em seus cabelos.
Brilhava. Brilhava como um farol iluminando o caminho das embarcações.
Ela sorria. O
corpo ao mesmo tempo pesava e perdia a noção de si. O dia amanhecia bonito.
Naquela manhã a roseira que plantara num vaso junto à janela floresceu pela
primeira vez. O aroma era gostoso. A rosa despertava devagar. Tudo era
silêncio. Era ela e a rosa. Ela sorria. O cheiro daquela manhã era diferente,
esquecia-se até do cheiro da fumaça dos motores, da poeira, do cheiro de mijo
que enfestava as ruas. Ela ia esquecendo tudo como se tudo fosse aos poucos
deixando de existir. Ela um dia teve medo de deixar de existir, mas até mesmo
isso parecia acabar. Deixar de existir era agora necessidade.
Brilhava. Mas
agora era uma luz fosca. O corpo tremia. Não tivera um dia de angústias ou
desespero. Acordou cedo, ouviu alguma música, andou pela cidade. Foi um dia
bom. Naquele dia tivera absoluta certeza. O corpo tremia e sentia frio, o
sorriso era agora uma contração em seu rosto. O vinho se espalhava pelo chão.
Parecia que ia vomitar, mas não podia. Vomitara a vida inteira, isso não era
mais necessário. Seu estômago se retorcia, mas o que estava lá ficaria lá. A
dor não era maior do que o prazer.
Sentia frio e
a luz aos poucos se apagava. Não. Eram os olhos que pesavam, a luz continuava
lá. Sentia o suor se derramando por cada poro de seu corpo. Sentia o ar se
arrastando em seus pulmões. O coração saltando em seu peito batia forte, mas
devagar. Não podia mais se mexer, como se não fosse mais um corpo, mas estava
leve. Ela era uma pluma flutuando no ar. Um pássaro que estende suas asas ao
céu e se deixa levar. A luz era um dourado vibrante. Rastros de sol beijavam o
vinho espalhado no chão. Cintilava. Era bom ouvir o silêncio.
O que restava?
Seus olhos entreabertos, o meio sorriso em seus lábios, seu corpo de mármore. O
sol beijava seus lábios em segredo. Adormecida. O que restava? Silêncio. O
vento entrava pela janela e fazia exalar o cheiro da rosa. A cidade acordava.
Os cheiros, as cores, as vozes, tudo evaporava. O que restava? O brilho fosco
da eternidade em seus olhos.
Samantha de Sousa
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